quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A Preguiça

Ouvir conversas alheias é um passatempo que pode facilmente originar momentos deliciosamente fúteis. Não confundir com coscuvilhice, acção pela qual pretendemos saber como vai a vida dos outros para, invariavelmente, tecermos críticos comentários acerca dessas outras vidas. Ambas as actividades têm as suas dignas valências e confesso já o meu apreço pela prática de ambas.
Contudo, ouvir conversas avulsas sem ter o trabalho de elaborar nenhum tipo de juízo sobre quem as pratica, dá-me um especial e preguiçoso gosto, pois muitas vezes é como assistir a pequenos trechos de peças de teatro cujo início e fim desconheço em absoluto. Apenas posso imaginar e tentar contextualizar aquela pequena conversa. Ou nem me dar sequer a esse trabalho e desfrutar apenas de algumas frases ouvidas de fugida.
Ontem foi um desses momentos. Uma senhora, negra, peso avantajado e seguramente uma vida sofrida queixava-se ao telemóvel, num sotaque que sublinhava as suas raízes africanas: “Vê lá tu que agora ela nem quer sair de casa! Diz que não tem roupa. E passa o dia na cama. Todos os dias lhe digo: Sai da cama rapariga, vai procurar um trabalho, vai fazer as necessidades...”.
Até onde poderá chegar a preguiça humana para justificar que alguém tenha que chamar a atenção de outrem para a conveniência de se levantar para “fazer as necessidades”?...
Preguiçosamente, segui o meu caminho sem esperar para ouvir mais detalhes daquele drama.

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